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  • sábado, 12 de agosto de 2017

    Para trazer o amor de volta. Será?


    A promessa está em diversas placas espalhadas pela cidade. Decidimos visitar uma "conselheira espiritual" para saber como funciona a consulta

    *Por Pedro Grigori

    No caminho entre o Setor de Indústrias Gráficas, onde fica a sede do Correio Braziliense, até a entrada do Guará, pelo menos sete paradas de ônibus estão tomadas por anúncios que prometem “trazer o seu amor de volta”. Em sites de busca, são encontrados 811 mil resultados pelo termo em Brasília. E as dúvidas e os mitos sobre como ocorrem os atendimentos são constantes. Em uma nota num site de lista telefônica, a cartomante que, para preservar sua imagem, chamaremos de dona Regina, descreve-se como uma espírita consagrada e com fortes poderes. Promete cortar feitiçarias, afastar maus espíritos, resolver impotência sexual e, claro, trazer de volta a pessoa amada. Finalizando a propaganda, dona Regina deixa claro: você não precisa dizer nada, eu direi tudo.
    A cartomante mora e trabalha numa quadra residencial no Guará. No local, uma mulher de meia idade lava a área externa de uma casa luxuosa e, ao perceber a chegada do novo cliente, desliga a mangueira e diz que vai “chamar a patroa”. A sala de atendimento de dona Regina é pequena e quadrada. Tanto a cerâmica quanto as paredes são de cor branca. Em um canto, uma mesa com imagens de santos, de Jesus Cristo, uma Bíblia e um círculo feito por um terço. O cheiro do local é doce, talvez devido aos perfumes femininos que se encontram em um outro canto, com mais imagens de santos e de orixás.

    No primeiro contato, os traços indígenas de dona Regina se destacam. Ela usa uma saia longa e uma blusa de tricô, ambas em cores quentes. O cabelo, preto e liso, se mantém amarrado em um coque. No rosto, as fundas olheiras dão um ar de cansaço à cartomante. “Você poderia desligar o celular? Muitas pessoas tentam gravar as consultas, isso atrapalha”, é a primeira frase que dona Regina diz ao se sentar. A consulta custa R$ 50, e o cliente pode optar pela leitura do futuro em búzios, tarô ou cartas.

    Ela pede que eu coloque a mão direita, semiaberta, em cima da Bíblia, e a esquerda na outra ponta da mesa. Após isso, deveria embaralhar e cortar o deck de tarô em três montes. “Antes, você tem que me dizer se quer saber tudo, independentemente de ser bom ou ruim, ou apenas as coisas que você me perguntar”, ressalta. Digo que quero ouvir tudo, então, ela começa a distribuir as cartas ao redor do terço, uma por uma, até a última: a papisa. “Você tem uma luz muito especial, mas uma boca muito grande. Pare de falar da sua vida para os outros, a inveja é uma das armas mais poderosas”, alerta.

    A consulta é dividida em três áreas: familiar, profissional e sentimental. Na hora de falar da última, dona Regina parece em dúvida. “Esse seu atual relacionamento, ele não é sério”, afirma. Mesmo dizendo o contrário, a cartomante continua com a mesma posição. “O seu destino já passou pela sua vida, no ano passado. Era uma pessoa mais alta que você, mas não deu certo, pois tinham feito uma amarração na vida dele”, garante. A partir desse momento, as expressões da mulher parecem mais sérias. “Não vamos amarrá-lo a você, seus destinos já estão traçados, mas existem linhas criadas por um trabalho, e isso os afasta. Porém, isso pode ser resolvido, basta você crer”, afirma.

    A solução, segundo Regina, é simples. Nossos anjos da guarda precisavam ter forças para, juntos, destruírem essas linhas. “Vamos construir uma mandala para eles. Porém, há um preço. Eu não cobro pelos meus trabalhos, mas são usados materiais nobres, que acabam custando caro”, explica. A mandala é um elemento utilizado por diversas religiões, tem formato de um tapete e funciona como um círculo mágico que representa, simbolicamente, a luta pela unidade total do eu. Os ingredientes para o trabalho constituíam em flores e frutas nobres, além de essências vindas da Índia. O preço final é salgado: R$ 550.

    Promessa 
    Minha consulta com dona Regina terminou por aí. Prometo entrar em contato em breve, para efetuar a segunda parte do atendimento. Ela pede que eu deixe a contribuição em cima da Bíblia e diz amém. Na porta, uma nova cliente espera. Ela parece ser uma velha conhecida, pois a cartomante a chama pelo nome e, rapidamente, a leva para a sala branca. Regina me deixou com um cartão, com diversos números de contato, junto ao nome embaixo dos dizeres “conselheira espiritual”. Muitas das placas de amarrações amorosas próximas à região eram de dona Regina, mas os endereços que prometem oferecer o serviço são diversos.

    Os motivos que levam pessoas a procurar os serviços são os mais diversos, assim como o estilo de atendimento. Na internet, blogs tentam mapear os charlatões, mas também existem diversas pessoas que usam os espaços para contar trabalhos que deram resultado. A reportagem tentou entrar em contato com 10 cartomantes — mães e pais de santos ou, simplesmente, conselheiros espirituais. Porém, nenhum concordou em conversar, relatando que os santos não os deixavam contar como são realizados os atendimentos.

    Hoje, aos 33 anos, Marília (nome fictício) conta com timidez sobre a consulta que teve com uma mãe de santo há seis anos, no Gama. Na época, desiludida com um término de namoro, decidiu pedir ajuda para recuperar o amado. “Lembro que eu sentia que minha vida acabaria se eu não o tivesse. Era um sentimento muito ruim, eu me sentia pesada. Então, procurei ajuda com uma mulher, muito bem recomendada, que me sugeriu um trabalho para amarrá-lo. Na época, lembro que paguei R$ 1.300.”

    O trabalho, feito com areia de cemitério, velas vermelhas, flores, farofa e uma galinha morta, deu efeito, mas a mulher conta ter se arrependido. “A duração era de sete anos. Lembro que ela me pediu para não procurá-lo, que ele viria, o que, de fato, ocorreu. Mas fiquei muito assustada, com medo da reação dele se descobrisse o que eu fiz. Então, decidi me afastar. Ele ainda me procurou por um tempo, mas acabamos nos separando. Hoje, só me arrependo pelo dinheiro que gastei”, recorda-se.

    O estado que levou Marília a procurar ajuda é comum. Bruno Cardoso, professor de psicologia clínica e cultura do Centro Universitário Iesb, explica que o tempo para superar um término varia em cada pessoa. “É preciso que venhamos a entender que, apesar das nossas obrigações e das pressões sociais, o tempo é um ingrediente essencial para a cura, assim como também leva tempo para superar algo e para se reinventar”, explica.

    Porém, Bruno afirma que, quando o período de luto demora a passar e começa a trazer problemas para a pessoa, há modos de pedir ajuda. “Recomenda-se que a pessoa busque ajuda. Pode ser de profissionais de saúde mental, familiares, amigos, grupos de apoio. Por meio do cuidado e da escuta que esses profissionais oferecem, pode-se redescobrir, ou criar novamente, um horizonte a seguir”, aconselha.

    Eu repórter  - “Não saí convencido”
    Liguei duas vezes para dona Regina pedindo orientações que me levassem ao endereço do consultório. Até então, nunca havia ido a um atendimento espiritual. Esperava algo teatral e cheio de elementos visuais. O que encontrei foi o oposto. Uma casa bonita, no meio de uma rua de classe média alta. Quem passa por fora dificilmente sabe o que ocorre ali, pois nem placas o local tem. Dona Regina também é famosa pela discrição.

    Durante a consulta, ela falou de diversas pessoas da minha vida, todas realmente existem. Adivinhou problemas que estou vivendo, previu mudanças positivas. Até a pessoa que ela dizia ser o “meu destino” tinha características semelhantes às de alguém que realmente existe. Mesmo assim, não saí de lá convencido dos poderes que ela dizia ter. Talvez pelo modo como ela apresentou o trabalho que seria a solução dos meus problemas. Senti que, em certos momentos, ela tentava saber mais da minha vida para, assim, conseguir argumentar melhor e, durante toda conversa, senti que ela se sentia entediada por estar ali.

    Dona Regina não gostava de falar sobre a vida pessoal, mas relatava seguir a “linha branca da umbanda”. Enviei uma mensagem depois da consulta, buscando mais informações sobre o trabalho. Ela apenas respondeu com um áudio pedindo que eu mantivesse a calma e voltasse com o dinheiro. Desde então, dona Regina nunca mais me enviou mensagens. Possivelmente, não esperava que eu retornasse com o dinheiro, o que me fez pensar que, possivelmente, ela já estivesse acostumada a nem sempre obter retornos. Talvez, a curiosidade seja o que mais leva visitantes ao consultório.

    (*)Pedro Grigori – Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A.Press – Correio Braziliense

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