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  • segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

    Crises hídrica e climática demandam pacto pelo território no DF

    (Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília)

    *André Lima, Secretário do Meio Ambiente do Distrito Federal, 

    Há mais de 30 anos, ambientalistas paulistas falavam da importância de proteger o território e a Mata Atlântica nos seus principais mananciais (Cantareira, Guarapiranga e Billings) em face da expansão da cidade. Inúmeras iniciativas sociais e políticas se sucederam. Campanhas Pró-Tietê, Cantareira, Guarapiranga, Billings, Ribeira do Iguape, Paraíba do Sul mobilizadas pela sociedade civil, governos e pela grande mídia. Ainda assim essas áreas foram perdendo significativamente sua vegetação original. Nessas décadas, bilhões de reais foram investidos em grandes obras de tratamento de água e esgoto e na captação e transposição de águas. Mas a crise veio e se instalou por lá. É preciso aprender com o que aconteceu em São Paulo. Em Brasília, infelizmente, já vivemos o racionamento. Algo inesperado há três ou quatro anos.

    Além do deficit histórico de investimento em infraestrutura de captação de água, que este governo vem buscando reverter, há os efeitos das mudanças climáticas, que nossa região vem sofrendo. É preciso reconhecer o ritmo desenfreado da expansão urbana (movido pela grilagem de terras públicas e construções irregulares) e estribado em índices muito altos de crescimento populacional, superiores a 2% ao ano, que acelerou o processo crítico de deficit hídrico. As nascentes, os rios, os lagos, o lençol freático e o nosso cerrado estão sendo cotidianamente comprometidos. Perdemos quase 60% da nossa vegetação no Distrito Federal, principalmente nas áreas periurbanas de Brasília.

    Urge enfrentarmos — os três Poderes e a população — a grilagem de terras e a ocupação ilegal do solo, sobretudo nas áreas de interesse ambiental. O apoio político e social às ações públicas de enfrentamento da grilagem de terras e de ocupações irregulares do solo, como a ação que vem ocorrendo no Parque do Guará e na Orla, é fundamental.

    O DF é relativamente bem servido de infraestrutura ambiental. Conta com inúmeros parques, estações ecológicas (a exemplo de Águas Emendadas), reservas biológicas, áreas de preservação permanente de matas ciliares e nascentes, áreas de relevante interesse ecológico e a proteção dos mananciais, relevantes para a filtragem e o retorno de água de chuva para o solo.

    O Cadastro Ambiental Rural (CAR-DF) já atingiu 8 mil propriedades rurais e 60% do território rural, para mapear a proteção e recuperação de matas ciliares e nascentes e manejo adequado do solo. Estamos concluindo o edital do Programa Recupera Cerrado, que deve viabilizar investimento próximo de R$10 milhões em restauro florestal em áreas críticas e sensíveis, como a região do Descoberto, nos próximos dois anos.

    Finalizamos, em novembro passado, o novo Mapa Hidrográfico oficial do Distrito Federal, indicando que Brasília possui uma malha hídrica rica, porém muito sensível e vulnerável. Todo esse equipamento ecológico, que a natureza nos oferece a custo zero, viabiliza a infiltração da água no solo, a conservação e a captação de toda água (superficial e subterrânea) oferecida ao povo do DF e atenua os efeitos das mudanças do clima. A gestão das águas não prescinde da boa gestão climática e do território.

    Lançamos também o inventário de emissões de gases de efeito estufa e um relatório para subsidiar a produção de um plano de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Estamos agora conclamando a sociedade brasiliense a se unir a nós no Fórum Distrital de Clima.

    O Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), instrumento de gestão do território, sob a nossa coordenação e o envolvimento de mais de 20 órgãos do governo distrital e federal, está em fase final de conclusão e será encaminhado à Câmara Legislativa até abril. Com ele, teremos a indicação e a definição de diretrizes para proteção e recuperação das áreas de recarga de aquífero (responsáveis pela infiltração da água para o lençol subterrâneo) e das áreas de proteção de mananciais, fundamentais para manter e aumentar a produção hídrica de qualidade a custos mais baixos.

    Precisaremos do apoio da sociedade e da Câmara Legislativa, que a representa, para que esse importante instrumento de gestão ambiental entre em vigor. Carecemos de novo pacto político e social pela água, pelo clima e pelo cerrado no DF. As crises da água e do clima que vêm se apresentando não nos dão outra opção.


    (*) André Lima - Advogado, secretário do Meio Ambiente do Distrito Federal, mestre em gestão e política ambiental pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília

    Consumidor: Direito + Grita

    Cláudia Souza teve problemas em São Paulo por causa da promoção de um site de compras coletivas

    Cuidado na reserva do hotel
    Quando o assunto é viagem, o primeiro pensamento é aproveitar o período para descansar ou conhecer um novo destino. Para não ter dor de cabeça durante as férias é preciso se programar. Com o avanço da tecnologia, hotéis e pousadas apostam na reserva dos quartos por meio de plataformas on-line. No entanto, é preciso ficar atento à confirmação da estadia para  não ser pego de surpresa na hora do check-in.

    A analista Cláudia Souza, 42 anos, comprou, por meio de um site de compra coletiva, uma promoção para um fim de semana de hospedagem em São Paulo. Coincidentemente, a mulher foi informada que, de  10 a 14 de junho de 2013, estaria na cidade por motivos profissionais. Logo pensou em estender a estadia e usar o cupom promocional adquirido. Cláudia ligou na Central de Reservas do referido hotel e agendou. Porém, semanas depois, o compromisso do trabalho foi cancelado. Consequentemente, a mulher ligou para cancelar também a reserva.

    Com a definição do período de férias, Cláudia decidiu aproveitar o cupom e convidou uma tia de Uberlândia (MG) para visitar a capital paulista. “Liguei novamente na central de reservas do hotel e segui as orientações contidas no voucher. Nesse contato, fui informada que, desta vez, não haveria envio de e-mail com a confirmação da reserva, já que este já tinha sido enviado via e-mail para a Central de Reservas do respectivo hotel com a cópia do voucher promocional.” Ao chegar em São Paulo, a surpresa: não havia reserva nenhuma no nome dela.

    A recepção estava tumultuada e Cláudia resolveu seguir as orientações da atendente. Sem oportunidade para esclarecer o que havia acontecido, a funcionária pediu o pagamento da diária de R$ 299,25. Apesar de estranhar a situação, pois se recordava de já ter pago o cupom, a mulher pagou o valor exigido. “Como naquele momento não tinha a fatura do cartão e não poderia comprovar o erro, resolvi não criar problemas e pensei que, depois, buscaria os meus direitos, com base nos comprovantes.” A consumidora frisa que, em momento algum, lhe foi dito que o valor pago se referia somente a uma diária, pois o cupom era para um fim de semana inteiro.

    Após toda essa confusão inicial, Cláudia e a tia conseguiram se instalar. No dia seguinte, as duas saíram para fazer compras. Ao retornarem, cansadas, foram surpreendidas com uma ligação da recepção exigindo a saída do hotel. “Sem entender o que estava acontecendo, resolvi descer até a recepção, onde fui informada de que o valor pago na data anterior referia-se a uma diária, que não havia vagas no hotel e que eu tinha exatos 20 minutos para deixar o local, ou seja, fui expulsa.” Por causa disso, ela teve de ir direto para o aeroporto e arcar com despesas de passagens aéreas mais caras para voltar para casa. Já em Brasília, Claúdia teve de ir atrás do site de compras coletivas, que a ressarciu.

    Pesquisa ampla

    Advogada do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Claúdia Almeida chama atenção para os cuidados e os direitos dos consumidores nessas transações. “Quando você faz uma reserva pela internet ou pelo telefone, os estabelecimentos podem pedir um percentual de 30% a 50% para segurar o agendamento. Isso é legal”, observa. Para que situações como a de Cláudia não aconteçam, a especialista adverte para sempre ligar e confirmar os dados. “Outra coisa é não olhar somente o site do hotel. É bom pesquisar sites especializados de viagem, ver as fotos que os internautas postaram e a avaliação dos serviços”, destaca.

    O consumidor tem que ficar atento também ao descumprimento de oferta. Imagine a situação de você reservar um determinado quarto de hotel com a vista de frente para o mar. Mas, ao chegar ao aposento, as fotos não corresponderem ao que foi ofertado. “Nesse caso, o hóspede pode pedir o abatimento proporcional do preço ou exigir o quarto esperado. Se o hotel não tiver o quarto do jeito que o cliente desejar, o consumidor pode pedir o ressarcimento ou reservar em outro hotel no patamar do desejado”, garante Almeida. A advogada esclarece ainda que, se o estabelecimento se opuser às condições, o prejudicado pode recorrer à Justiça.

    Do outro lado da moeda, o gerente da rede de hotéis Meliá, Pércio Mello, explica o procedimento quando acontecem problemas com reservas. “Nossa prioridade é o cliente. Confiamos nele e trabalhamos sempre para resolver qualquer questão. O que tem ocorrido são as chamadas reservas de último minuto. O hóspede chega ao aeroporto e agenda pelo próprio celular e, no tempo do traslado, mas a solicitação ainda não chegou nos nossos sistemas ou às vezes só entra no e-mail”, conta. Então, cientes desses risco, Pércio garante que todos os funcionários estão preparados para resolver a demanda. “Por sermos uma rede mundial de mais de 400 hotéis em 40 países, essa expertise, a tecnologia acaba nos favorecendo a não ter muitos problemas.”



    Correio Braziliense – Foto: Jhonatan Vieira-Esp/CB/D.A.Press 

    #EMPREENDEDORISMO » Coragem para enfrentar a crise

    Wander é gerente de hortifrúti que aumentou a loja, contratou e ampliou os serviços com acrise

    Enquanto micro e pequenas empresas do DF reduzem em número e tamanho, outros empresários apostam no momento difícil para expandir os negócios e encontrar novos caminhos de ganhar dinheiro

    *Por: Flávia Maia, 

    Sylvana mudou de ramo quando o primeiro empreendimento não deu certo

    Por dia, 13 micro e pequenas empresas fecham as portas no Distrito Federal. Entre 2016 e 2017, 5.153 encerraram as atividades, despediram os trabalhadores e pararam de girar a economia local. Responsável por 92,9% dos negócios da capital do país, a situação preocupa o setor produtivo e o governo. Sem a força dos pequenos, a circulação de dinheiro estanca, a arrecadação tributária cai e, principalmente, o número de desempregados não para de crescer — já são 302 mil, o que corresponde a cerca 18,5% da mão de obra. Os setores de papelaria e livraria, ótica, eventos, ferragens e ferramentas, autopeças e cosméticos são os mais atingidos, segundo dados do Sebrae do DF e da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

    A crise financeira e política vivida pelo país impactou diretamente o Distrito Federal. A inflação alta, o superendividamento das famílias e a falta de crédito pessoal reduziram a confiança do consumidor, que se afastou das compras. A crise dos estados também contribuiu, ainda mais pelo fato de o DF ser uma unidade federativa onde a administração pública tem um importante peso. Sem dinheiro em caixa, medidas de austeridade, como aumento de impostos e cortes nos gastos públicos, tiveram que ser tomadas. “A suspensão dos reajustes dos servidores, de contratos e de pagamento de fornecedores tiveram um papel decisivo para agravar a situação”, alerta Adelmir Santana, presidente da Federação do Comércio do DF (Fecomércio).

    Na opinião de Antônio Valdir Oliveira Filho, superintendente do Sebrae-DF, a crise no período de 2015 e 2016 está mais grave por aqui do que a de 2008, já que a mais recente atingiu o bolso do servidor público. “A economia local sempre contou com esse consumidor diferenciado, que é o funcionário público, que tem estabilidade. Entretanto, em 2016, a crise também atingiu esse cliente”, acredita.

    Oportunidade x necessidade

    O desaquecimento da economia, somado ao desemprego, está mudando a curva positiva do empreendedorismo na capital do país. Até 2014, os chamados empreendedores por oportunidade — aqueles que veem um diferencial de mercado e optam por abrir um negócio — cresciam e chegaram a somar 71% dos potenciais empresários locais. Em 2015, porém, com o agravamento da crise, eles reduziram para 56%. Em contrapartida, o conhecido empreendedorismo por necessidade aumentou de 29% para 44%, em apenas 12 meses. Por definição, esse negócio está relacionado mais à sobrevivência do que a uma aposta em um produto ou serviço diferencial. Para Valdir, essa inversão do tipo de empreendedorismo é natural em períodos de crise. “Primeiro vem o desemprego, depois, a necessidade; por fim, o empreender por causa dessa realidade.”

    Na análise de Kleber Pina, consultor e professor de gestão de marketing do Ibmec, a mudança de perfil no empreendedorismo preocupa e mostra a extensão da crise nos pequenos negócios. “O empreendedorismo por oportunidade é saudável. O empresário vê uma chance de mercado e vai atendê-la. Já o por necessidade age, muitas vezes, pela obrigação de ter que sobreviver e nem sempre essa pessoa tem perfil empresarial. Com isso, ele vai chegar ao mercado com lacunas e até com decisões erradas, o que pode contribuir para a empresa ter um curto período de existência”, analisa.

    Sem medo de arriscar
    Os especialistas são unânimes ao apontar que a crise pode se transformar em um cenário desafiador. Essa foi a aposta do Horti-Mais, localizado na Asa Sul. Enquanto vários estabelecimentos optavam por reduzir espaço, gastos e funcionários, o hortifrúti resolveu crescer. Em uma folha de papel, o gerente-geral do estabelecimento, Wander Ferreira, 58 anos, explica a opção: primeiro, ele escreveu “crise”, em seguida, riscou o “s”, para evidenciar que a inovação é essencial para se manter no mercado. “Muita gente me chamou de doido porque nós praticamente dobramos a loja. Mas era preciso ter novos clientes, novas plataformas, novos consumidores”, comenta.

    De 2015 para 2016, a loja aumentou de 350 m² para 890 m². A equipe foi reforçada e passou de 50 funcionários para mais de 100. A parte de mercearia, assim como a quantidade de serviços oferecidos cresceu, e a loja, que antes era focada em frutas e verduras, passou a servir refeições como pizzas, sushis, caldos e panificação. A entrada no e-commerce e a aposta em produtos diferenciados, como os para intolerantes a determinados tipos de alimentação, também ajudaram no bom desempenho. “Nosso faturamento nunca caiu, tanto que estou adiantado no tempo que eu tinha previsto para o retorno do investimento”, comemora Wander.



    (*) Flávia Maia – Fotos: Luis Nova-Esp/CB/D.A.Press – Carlos Vieira/CB/D.A.Press - Correio Braziliense

    As perguntas que nunca fiz a Darcy Ribeiro


    Eric Nepomuceno
    (Valor)

    Darcy Ribeiro morreu há 20 anos, no dia 17 de fevereiro de 1997. Viveu até o último instante desejando o que sempre quis: vida, mais vida. Ao longo de seus últimos 22 anos, nossa convivência foi intensa. Eu o chamava de “vice-pai”, em alusão à relação que ele manteve, quando da criação da Universidade Nacional de Brasília, com meu pai, o físico Lauro Xavier Nepomuceno. Esta é a minha memória de um homem íntegro, de um visionário, de um construtor do futuro. De alguém que, neste Brasil de hoje, faz mais falta que nunca.

    1- Nunca perguntei a Darcy Ribeiro se ele costumava cochilar, mas posso assegurar que não. Mesmo breves, seus sonos seriam profundos. Darcy não sonhou pequeno, nunca. E também não se limitou a sonhar um mundo melhor, mais justo: foi à vida para mudar esse mundo.

    2- Nunca perguntei se ele gostava de contas redondas. Volta e meia penso nisso, quando recordo que ele nasceu em outubro e morreu em fevereiro. Nove meses separaram Darcy dos 75 anos completos. Nove meses: a gestação de uma vida.

    Nesse tempo ele foi ministro da Educação, ministro-chefe da Casa Civil, vice-governador do Rio de Janeiro, secretário da Cultura do Rio de Janeiro, secretário de Desenvolvimento Social de Minas Gerais, reitor da Universidade Nacional de Brasília – que, aliás, fundou – e várias coisas mais. Também foi senador. E ele, que se dizia eterno, conseguiu a proeza de morrer imortal – também teve tempo de sacudir o chão da Academia Brasileira de Letras. Escreveu romances, ensaios antropológicos, ensaios sobre educação, análises críticas da história do Brasil e da América Latina.
    Seus livros de antropologia, principalmente “O Processo Civilizatório”, “As Américas e a Civilização”, e acima de todos “O Dilema da América Latina”, fizeram dele, ao lado de Celso Furtado, o intelectual brasileiro mais respeitado e influente na América Latina da segunda metade do século XX. Foi indigenista, antropólogo, romancista, conspirador, mas gostava é de ser chamado de educador – coisa, aliás, que também foi. Seu livro derradeiro, “O Povo Brasileiro”, é um farol a derreter o breu em que este nosso país volta e meia é condenado a mergulhar.
    3- Nunca perguntei a Darcy Ribeiro qual o fascínio que provocava nele o linho branco. Lembro que no dia em que foi eleito senador, ele vestiu terno branco, de linho formidável, e ficou andando pela sala do seu apartamento de Copacabana, vendo o mar e falando sem parar. E descalço. Dizia que era por causa do seu sangue índio. Até hoje desconfio que, na verdade, ele andava descalço para sentir os pés no chão. Naquele tempo, Chico Buarque ainda não havia escrito o verso que diz “é preciso pôr o chão nos pés”.

    4- Nunca perguntei a Darcy Ribeiro se ele se considerava um intelectual peculiar. Não perguntei nem precisei: evidentemente Darcy era peculiar em tudo que fez.

    Jamais se recolheu aos claustros acadêmicos ou da burocracia oficial para ficar olhando a vida ao longe, a realidade transformada em números e estatísticas, a vida como objeto de análise fria, calculada, distante, indolor.

    Não: ele mergulhou fundo, participou de todas as maneiras que pôde da vida política deste país. E quando foi impedido de continuar aqui, engajou-se onde passou o exílio. No Uruguai, no Chile de Allende, no Peru, ao lado do general Velasco Alvarado, nas suas andanças pela Costa Rica, pelo México, pela Venezuela, não sossegou um só instante.
    Acreditava no poder transformador da realidade. Acreditava na indignação. Dele, ouvi certa vez uma frase definitiva. “Na América Latina, só temos duas saídas: ser resignados, ou ser indignados”.
    Seu compromisso chamava-se Brasil. Quis mudar a educação, criando escolas de qualidade para todos; quis salvar os índios, preservando suas culturas e protegendo suas terras; quis mudar a estrutura social que beneficia alguns à custa de todos os outros. Perdeu.
    Num de seus textos mais contundentes, lido quando recebeu o título de doutor honoris causa na Sorbonne, em 1978 – foi o primeiro brasileiro a receber essa honraria -, falou dessas derrotas:
    “Fracassei como antropólogo no propósito mais generoso que me propus: salvar os índios do Brasil. Sim, simplesmente salvá-los. Fracassei também na realização da minha principal meta como ministro da Educação: a de pôr em marcha um programa educacional que permitisse escolarizar todas as crianças brasileiras. Fracassei, por igual, nos dois objetivos maiores que me propus como político e como homem de governo: realizar a reforma agrária e pôr sob controle do Estado o capital estrangeiro de caráter mais aventureiro e moral.”
    Terminou dizendo que “esses fracassos da minha vida inteira” eram também “os únicos orgulhos que tenho”. Anos mais tarde, um dos intelectuais latino-americanos que ele mais influenciou, o escritor Eduardo Galeano, escreveu: “Estes são os seus fracassos. Estas são as suas dignidades”.
    Nos dias de hoje, neste país esfarelado, mais que nunca as dignidades de Darcy Ribeiro são necessárias. Tão desesperadamente necessárias.
    5- Nunca perguntei a Darcy quais eram suas urgências, porque ele era um homem de urgências permanentes. Havia, em sua maneira de olhar e pensar o Brasil, a América Latina e o mundo, um eixo nítido: o fato de não estarmos condenados a ser o que somos, a certeza de que não somos vítimas de um destino malvado, e sim de um sistema perverso.

    Para ele, o Brasil era um problema que só teria e só terá solução a partir de nós mesmos, de nossa capacidade de impulsionar e consolidar mudanças, derrotar retrocessos.
    6- Nunca perguntei a Darcy Ribeiro se ele tinha ideia de que era o único amigo que nasceu no mesmo ano do meu pai e conseguiu ser, até o fim, mais jovem que meu filho.
    Nem perguntei de duas imagens que guardo dele para sempre.
    A primeira: Alta noite do dia 31 de dezembro de 1995, e ele estava sentado na varanda do seu apartamento na avenida Atlântica. Das alturas daquele quinto andar, ele contemplava tudo com olhos de piloto atento, percorrendo as pessoas, as ondas do mar oceano, as embarcações iluminadas.

    Quando faltava pouco para a virada do ano – a penúltima que ele iria ver – duas amigas chegaram na varanda e colocaram no chão um grande balde prateado, desses que são usados para esfriar garrafas de vinho.
    No balde havia água do mar e areia da praia. Quando viu o foguetório da meia-noite e do ano que se iniciava, ele mergulhou os pés no balde. Darcy, naquela noite, adoentado – e muito – não podia ir até o mar. Pois deu um jeito de trazer o mar até ele. Até seus pés descalços. De pôr enfim o mar, a areia, o chão nos pés.
    A segunda: Fim de tarde de um sábado, poucos meses antes de nos deixar para sempre, ele saiu do escritório de Oscar Niemeyer, naquela mesma avenida Atlântica. Vestia um terno branco, e foi caminhando devagar pela calçada até o automóvel que esperava por ele.

    Do mar, vinha uma brisa cálida. Visto lá do alto, o paletó branco esvoaçando, caminhando devagar, Darcy Ribeiro parecia um veleiro desafiando os ventos, rumo a um futuro – um porto – que só ele poderia adivinhar.
    Guardo essa imagem e a certeza de que o porto, aquele porto, é preciso agora, mais do que nunca, merecê-lo. Porque onde quer que esteja, Darcy continua como sempre: indignado. E descalço.

    (Texto enviado por Mário Assis Causanilhas, que também era grande amigo de Darcy Ribeiro) - Tribuna da Internet.

    sábado, 18 de fevereiro de 2017

    Lava Jato tem 21 apenas presos, dos quais sete ainda não foram a julgamento

    Charge do Sinovaldo


    Com a Operação Lava Jato prestes a completar três anos, 21 envolvidos permanecem presos no Rio ou Paraná, por ordem do juiz Sergio Moro. Destes, somente sete ainda não foram julgados: o ex-governador do Rio Sérgio Cabral, seu ex-secretário Wilson Cordeiro, o ex-ministro Antonio Palocci, o ex-deputado Eduardo Cunha e os empresários Carlos Miranda, Flávio Macedo e Eduardo Meira. Os outros 14 têm algum tipo de condenação. E entre os 21, só há um delator, o empreiteiro Marcelo Odebrecht. Os demais delatores já foram libertados.
    Os outros executivos da Odebrecht, que firmaram acordo de colaboração, já deixaram a cadeia – os últimos foram Olívio Rodrigues e Luiz Eduardo da Rocha, em dezembro.
    Um dos principais delatores da Lava Jato, o doleiro Alberto Youssef, que firmou acordo ainda em 2014, obteve o direito de permanecer em prisão domiciliar em novembro passado.
    PALOCCI, CUNHA E DIRCEU – Na lista dos presos remanescentes no Paraná estão figuras de grande peso na política nacional. Além de Palocci e Cunha, lá está o ex-ministro José Dirceu. O ex-deputado Pedro Corrêa (PP-PE) ainda aguarda a homologação de seu acordo de delação pela Justiça e espera deixar a cadeia.

    Segundo o Ministério Público Federal e a Justiça Federal, a prisão que se estende há mais tempo é a de Renê Luiz Pereira, detido ainda na primeira fase, em 2014. O caso já foi julgado na segunda instância, assim como os do empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, e do ex-deputado federal Luiz Argôlo.
    Em segundo lugar, está o ex-diretor da Petrobras Renato Duque, que vai completar dois anos seguidos na prisão no próximo mês. Antes, em 2014, ele já havia ficado três semanas detido.
    CONDENAÇÕES – Duque é também quem recebeu penas mais altas de cadeia até o momento entre os presos. Ele já foi condenado em três ações penais em penas que somam 51 anos. O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto também já tem três condenações.

    A maioria dos detidos são ex-agentes públicos suspeitos de receber propina, como ex-congressistas. Há ainda acusados de operar os pagamentos, como Adir Assad, já condenado por Sergio Moro a quase dez anos de prisão.
    POLÊMICA DA PREVENTIVA – Na semana passada, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes disse que a corte tem um “encontro marcado com as alongadas prisões que se determinam em Curitiba”. “Temos que nos posicionar sobre este tema que conflita com a jurisprudência que desenvolvemos”, afirmou.

    Advogados de suspeitos vêm criticando as ordens de prisão expedidas por Moro desde as primeiras fases da investigação, em 2014.
    Os procuradores da Lava Jato sustentam que a quantidade de prisões remanescentes, diante do número de 260 suspeitos já denunciados na operação, mostra que os decretos de detenção são “excepcionais”. Para a força-tarefa, as prisões impedem que crimes voltem a ser cometidos e “protegem a sociedade ao longo do processo”. Moro costuma citar como argumento para prisões o risco à ordem pública ou possível prejuízo às investigações.
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    NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – O resultado da Lava Jato até parece decepcionante, porque muitos delatores deixaram a cadeia, estão em regime aberto ou semiaberto. Mas a delação premiada funciona assim mesmo – os menores entregam os maiores e são beneficiados. Por isso, pode-se até dizer que a Lava Jato mal está começando. Tem muito peixe grande para cair na rede.(C.N.)




    Deu Na Folha – Tribuna da Internet

    #URBANISMO » À bela espera do ônibus

    A artista Vivi Dourado transforma uma insossa parada em um belo mapa das atrações da 508 Sul: cidade mais bonita e usuário mais feliz
    Parceria entre sociedade e governo renova a parada de ônibus da 508 sul. A designer Viviane Dourado, que já tingiu espaços no Cruzeiro Velho, agora transforma em pintura o mapa daquela quadra

    *Por: Isabella Conte,

    Incomodada com o péssimo estado de conservação da parada de ônibus da 508 Sul e com a falta de conforto dos usuários, a assistente social Solange Madeira, 62, encabeçou uma proposta de revitalização do espaço. Com a parceria e o apoio do Governo do Distrito Federal, da comunidade e da designer Viviane Dourado, o projeto ganhou vida e, desde o último dia 13, a parada da W3 está completamente de cara nova.

    “Um dia, deixei meu carro em casa e optei por pegar um ônibus para ir ao shopping. Quando cheguei à parada, vi o banco quebrado, as paredes pichadas e o odor de urina era fortíssimo”, conta Solange. Decidida a mudar a situação do local, ela entrou em contato com a artista Viviane — que já havia pintado e restaurado várias paradas no Cruzeiro Velho, há cerca de quatro meses — e, juntas, bolaram o plano para levar a ideia à Administração de Brasília.

    Apresentado, o projeto foi logo aceito e o órgão se prontificou a ajudar. Para colocar a proposta em prática, foram convidados reeducandos da Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso do Distrito Federal (Funap) para ajudar a colorir as paredes, a podar as árvores da localidade e a consertar a calçada em volta da parada. Concluídas tais etapas, Viviane deu início à decoração. Dessa vez, optou por fazer a arte em forma de mapa. Após estudar a região, representou os pontos históricos da quadra, porta de entrada para a 308 Sul, considerada quadra modelo de Brasília (veja quadro). Em dez dias, já estava tudo pronto.

    “Levei um susto quando cheguei aqui e vi a parada toda arrumada”, lembra Marly Gomes, de 38 anos. Ela é cuidadora de idosos e passa por ali diariamente, para ir e voltar do trabalho. “Isso aqui antes era imundo, cheirava a urina e tinha buracos enormes na calçada. Inclusive, uma vez, quando eu ainda estava grávida, caí em um buraco e bati com a barriga no chão”, relembra. Agora, Marly se encanta com o espaço que, segundo ela, está mais confortável e transmite mais segurança. “Passo pelo menos uma hora, ou duas, nessa parada, então, é muito melhor agora, que consigo ter conforto enquanto espero o ônibus.”

    Tanto Solange quanto Viviane afirmam que o trabalho foi gratificante e esperam inspirar outras pessoas a tomarem atitudes semelhantes para repaginar outros espaços da cidade. “Esse trabalho foi feito para as pessoas se sentirem bem, e só foi possível por causa das parcerias que nós conseguimos. As tintas, por exemplo, foram doadas pelos comerciantes daqui. Eu não teria conseguido fazer essa mudança sozinha”, emociona-se Solange. A única coisa que as duas esperaram da população, além do desfrute do espaço, é que a arte e o trabalho sejam respeitados. “A gente pede encarecidamente que não colem cartazes ou pichem as paredes; que não joguem lixo no chão, e que os cidadãos sejam os vigilantes daqui”, conclui Viviane.
    O ponto revitalizado por iniciativa de Solange Madeira é porta de entrada para a quadra modelo 308 Sul

    A inspiração
    Solange tomou conhecimento do trabalho de Viviane por meio do projeto que ela desenvolve no Cruzeiro Velho, o Parada com Arte. Apesar de a vontade datar de 2014, o desejo só se concretizou em outubro de 2016 e é inspirado no pai da artista. “Ele sempre passou para mim essa questão de cidadania e de cuidar dos espaços públicos. Então, quando cresci, resolvi seguir tais ensinamentos e começar a revitalizar as paradas de ônibus da cidade, que eram todas destruídas”, explica Viviane. Na época, entrou em contato com a administração local e conseguiu permissão, além de ajuda, para o início do projeto.

    De lá para cá, nove paradas daquela cidade foram reformadas. “Em cada uma, pintei um pedaço da minha infância. Sou nascida e criada no Cruzeiro e decidi dividir a minha experiência com o pessoal de lá”, comenta. Antes de a artista dar início ao próprio trabalho, a administração prepara o ponto de ônibus passando uma massa corrida para nivelar a estrutura. O tempo da pintura varia para cada imagem, mas a média é de quatro horas. As tintas e os materiais são doados por comerciantes locais que incentivam a ação.

    A designer se diz muito contente com seu trabalho voluntário e conta que pretende ensinar às pessoas a preservarem os espaços públicos, para que todos tenham acesso a um serviço de qualidade. O trabalho de Viviane Dourado pode ser acompanhado pela hashtag #CruzeiroArteNaParada.

    Um exemplo de quadra
    A SQS 308 é considerada quadra modelo de Brasília por ser referência de como deveriam ser as superquadras da cidade: espaços em escalas bem definidas e com toda infraestrutura básica para atender as necessidades de seus moradores. A obediência rigorosa à orientação do Relatório do Plano Piloto, de Lúcio Costa, conferiu a essa quadra uma urbanização avançada e de valor histórico incontestável. 

    Nela foram construídos: Clube Unidade de Vizinhança, Escola Classe Escola Parque, Jardim de Infância, Espaço Cultural da 508 Sul, Postode Saúde, Biblioteca Pública, a Igrejinha de Fátima, Cinema, Teatro e supermercados. É a única quadra a ter o projeto paisagístico assinado por Burle Marx no projeto urbanístico de Lúcio Costa. É tambémpioneira na construção de garagens subterrâneas e seu arruamento tornou-se um padrão seguido por grande parte das construções da cidade.

    Em 27 de abril de 2009, o então governador, José RobertoArruda,assinou o Decreto 30.303/09, que estabelece o tombamento do conjunto urbanístico, arquitetônico e paisagístico da Unidade de Vizinhança formada pelas superquadras residenciais 107, 108, 307 e 308 da Asa Sul, 

    Fonte: Prefeitura da Superquadra da 308 Sul



    Por: Isabella Conte* (Estagiária sob supervisão de Flávia Duarte, - Fotos: Ed Alves/CB/D.A.Press – Correio Braziliense

    sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

    MOVIMENTOS LANÇAM PROFESSORA DA UNB COMO CANDIDATA AO STF

    Candidatura de Beatriz Vargas Ramos, professora de Direito Penal e Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB), é para demonstrar indignação com indicação de Alexandre de Moraes ao Supremo; a anticandidatura foi lançada por especialistas do meio jurídico, representantes de movimentos sociais e de mulheres no Senado; "O que nós queremos é fazer o contraponto, a denúncia dessa indicação, o que significa esse candidato do ponto de vista do apequenamento do próprio Supremo", afirmou a anticandidata

    Da Rede Brasil Atual - Especialistas do meio jurídico, representantes de movimentos sociais e de mulheres lançaram nesta quarta-feira (15), no Senado, a "anticandidatura" de Beatriz Vargas Ramos, professora de Direito Penal e Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB) . A iniciativa é uma manifestação de preocupação e protesto contra a indicação do advogado Alexandre de Moraes para a vaga de Teori Zavascki no Supremo Tribunal Federal (STF). Afastado do Ministério da Justiça, Moraes será sabatinado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado na próxima terça-feira (21).

    "O que nós queremos é fazer o contraponto, a denúncia dessa indicação, o que significa esse candidato do ponto de vista do apequenamento do próprio Supremo, porque ele, como político, como membro do PSDB, pessoa que esteve à frente da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e do Ministério da Justiça, deu demonstrações de não entender os direitos fundamentais", afirmou a anticandidata, em entrevista coletiva no Senado.
    Beatriz Ramos citou como desvio ético o fato de Alexandre de Moraes contradizer tese de doutorado defendida por ele próprio na Universidade de São Paulo (USP), em 2000. O estudo propõe que quem exerceu cargos políticos no primeiro escalão da República, como é o seu caso, não poderia ser indicado ao STF. A professora também comentou o envolvimento do indicado em suspeitas de plágio em trabalhos acadêmicos. "Ele é um plágio de todo o retrocesso que estamos verificando o novo governo Michel Temer. Ou seja, é o plágio do pior."
    Documento com cerca de 5 mil assinaturas contrárias à ida de Moraes ao Supremo foi entregue ao presidente da CCJ, senador Edison Lobão (PMDB-MA).
    "Ele trata todos matérias da área da Justiça como questão de força, de polícia. Ele não tem legitimidade para assumir esse cargo, justamente pelo perfil dele", afirma a secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CUT, Juneia Batista.
    A estudante Ana Júlia Ribeiro, nacionalmente conhecida por sua intervenção na tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná contra a reforma do ensino médio e em defesa do ensino público, também destacou a truculência com que Alexandre de Moraes, como secretário de Segurança Pública, tratou os secundaristas que ocuparam escolas contra projeto de reorganização do governo de Geraldo Alckmin (PSDB), em São Paulo. "Para a juventude, não é um nome que valorize nossas pautas."


    Brasília 247

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