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  • quinta-feira, 10 de agosto de 2017

    Brasília, o mandacaru do cerrado

    Brasília, o mandacaru do cerrado

    *Por Adriana Bernardes

    Brasília nasceu para embasbacar. Quem chega, vindo de lugares onde os endereços têm nomes e as casas são identificadas por números estranha, de imediato, o conjunto de letras e algarismos. A capital se espalha em grandes áreas verdes — ou secas, a depender da estação — e causa desconforto naquela gente acostumada a viver nas urbes tradicionais. Os espaços vazios daqui provocam uma sensação de distanciamento do forasteiro. Não se tromba com desconhecidos nas esquinas. Porque nem esquinas por aqui há.

    Só recentemente tomei conhecimento das impressões de Clarice Lispector sobre a cidade. “Quero esquecer de Brasília, mas ela não deixa. Que ferida seca. Ouro. Brasília é ouro. Joia. Faiscante.” Os textos deixam claras as contradições impostas pelo visionário Lucio Costa. Quando cheguei, vi Brasília como um enorme mandacaru. A planta, comum no semiárido do Nordeste, tem flores brancas enormes, e os frutos têm um intenso tom de violeta. Mas as folhas, repletas de espinhos, garantem a sobrevivência da espécie. E o que isso tem a ver com Brasília?

    Assim como se revela o cactus, ela é linda e árida. E também exótica, termo usado por quem a ama ou a odeia. Brasília é uma cidade que não abraça nem se deixa abraçar. Descobri, com o passar do tempo, que essa sensação perdura por motivos diferentes. No começo, pelo estranhamento natural do olhar estrangeiro. Depois, pelas contradições que se descobrem no dia a dia.

    Em Brasília, a maior renda per capita convive com a miséria extrema. É a cidade que tolera a exclusão de 60 mil analfabetos. E parece achar normal que metade da população carcerária não tenha acesso a atendimento médico. Brasília também leva toda a culpa pela corrupção do país, quando, na verdade, os crimes são cometidos por políticos vindos dos quatro cantos do país.

    É a capital que alimenta a crença na segurança pública. Mas é onde Maria Vanessa foi brutalmente assassinada na noite de terça-feira. E onde, em abril deste ano, Luiz Eduardo foi morto ao trocar tiros com um bando de criminosos na 309 Norte. Horas antes, ele evitou que o grupo assaltasse uma loja de conveniência e foi assassinado por vingança, segundo a polícia. Diante de tantas disparidades, só mesmo evocando Clarice: “Brasília é uma estrela espatifada. Estou abismada. É linda e nua”.


    (*) Adriana Bernardes – Jornalista, repórter do Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog - Google

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