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  • domingo, 19 de março de 2017

    Marianne Peretti - (Catedral Metropolitana de Brasília, obra-prima da arquitetura moderna, ela criou um vitral que é uma espécie de abóbada cósmica para filtrar a luminosidade tropical do céu da Capital)


    Por Marianne Peretti,

    Com três ou quatro riscos, Oscar Niemeyer criou obras geniais, majestosamente simples. Mas, além disso, ele teve o mérito de convidar artistas de grande talento para colaborar na integração entre arte e arquitetura, que transformaram Brasília em uma referência internacional.

    Em alguns casos, essa integração se plasmou de maneira tão indivisível que os nomes dos artistas se apagaram. Fica a impressão de que tudo é criação de Niemeyer. O paisagista Burle Marx ou os escultores Maria Martins, Alfredo Cheschiatti e Bruno Giorgio já eram reconhecidos. No entanto, existem também aqueles que foram forjados a partir da experiência de Brasília. É o caso de Athos Bulcão e Marianne Peretti: se Athos inventou uma nova linguagem do azulejo, essa pernambucana francesa inventou uma linguagem do vitral para a arquitetura moderna, uma linguagem para filtrar a luz tropical.

    Véronique David, especialista em vitrais e pesquisadora do Centro André Chastel da Universidade Sorbonne, coloca Marianne ao lado de Henri Matisse e Marc Chagall na lista dos mais importantes vitralistas do século 20. Nem sempre nos damos conta, mas as obras de Peretti estão espalhadas pela cidade: na Catedral Metropolitana, na Câmara Mortuária do Memorial JK, no Panteão da Pátria, no STJ e no Teatro Nacional.

    Suas esculturas-totens fundem árvores e pássaros, figuras e abstrações, a concretude e o movimento. Sempre procura a depuração da forma até o essencial. Elas estão impregnadas de um sentido do sagrado. O ponto comum é a herança de Brasília: a sabedoria para harmonizar, valorizar ou sacralizar os espaços da arquitetura.

    Na Catedral Metropolitana de Brasília, obra-prima da arquitetura moderna, ela criou um vitral que é uma espécie de abóbada cósmica para filtrar a luminosidade tropical do céu de Brasília. Imagino que seja difícil a um fiel se concentrar no eventual sermão de um padre que fale do púlpito, à altura do corpo. Ali, nosso olhar está sempre dirigido para o alto. Para ser ouvido, o pregador precisaria falar do ponto em que voam os anjos de Cheschiatti. Lá, o nosso olhar só se dirige para o alto e para o infinito.

    No STJ, a escultura de Peretti mostra uma mão com um olho; no Teatro Nacional, a escultura de um pássaro, símbolo da liberdade, é vazada pelo voo; no Memorial JK, um vitral carregado de figuras simbólicas coroa a câmara mortuária. O painel Araguaia estava inexplicavelmente esquecido nos depósitos do Senado Federal. A gente sai de uma visita aos prédios que têm intervenções de Marianne Peretti com a sensação de transparência, de leveza, de ritmo, de luminosidade e de voo. Elas enriqueceram muito as obras concebidas por Niemeyer.
    Memorial JK - câmara mortuária
    Teatro Nacional - Escultura de um pássaro, símbolo da liberdade, é vazada pelo voo




    Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog - Google

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