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  • segunda-feira, 13 de novembro de 2017

    Ser gentil: bom, barato e faz bem!

    Estudantes de Taguatinga preparam as placas que serão espalhadas pela cidade: atitudes por uma convivência melhor - Dia Mundial da Gentileza é comemorado hoje, mas que tal fazer dela o motivo para 365 celebrações, de janeiro a dezembro?

    Por Júlia Campos 

    No dicionário, gentileza significa “qualidade ou caráter de gentil”. Palavra de nove letras que faz toda diferença na convivência em sociedade. Mas, afinal, o que é mesmo ser gentil? Não custa lembrar. São pequenas atitudes, gestos e palavras que podem mudar o dia de quem está próximo — como um simples bom-dia, por exemplo. Um sorriso, ao dar passagem a alguém no elevador, ou ceder o lugar no ônibus ou no metrô, ou socorrer a pessoa que tropeçou...

    Em meio a uma rotina corrida e de falta de tempo, coisas simples assim costumam ficar em segundo plano. Mas não para gente como os jovens que fazem parte do coletivo Mapa Gentil, com a proposta de transformar para melhor pelo menos algum momento do dia do ser humano. Um dos trabalhos, para isso, é espalhar, pela cidade, arte com mensagens positivas. São obras em placas motivadoras, grafite, stickers (em adesivos) e esculturas feitas de lixo.

    O projeto se inspirou na vida do paulista José Datrino, que ficou conhecido como José Agradecido e Profeta Gentileza, depois que se mudou para o Rio de Janeiro e passou a circular pelas ruas da cidade, nas décadas de 1980 e 1990, vestindo uma bata branca enfeitada e pregando o sentido do amor, da espiritualidade e da solidariedade. Com essa visão, o coletivo começou a atuar em uma escola pública, com um alvo específico, os alunos do ensino médio.

    A iniciativa deu tão certo, segundo Janaína André, idealizadora do projeto, que o diretor do colégio pediu que continuassem, alegando que as ocorrências de violência dentro da instituição haviam diminuído. “Vimos que a gentileza dentro do espaço escolar pode ser uma solução para os problemas e uma mediação entre as relações.” Hoje, o Mapa Gentil conta com uma rede de artistas que oferecem oficinas e laboratórios criativos na busca de soluções para os problemas sociais locais.

    A proposta já alcança as cidades de Taguatinga, Ceilândia, Riacho Fundo e Samambaia. O coletivo acredita que a mobilização social para a transformação pode ser construída por meio da arte contemporânea como forma de educação pública. E o projeto sempre se inspira na própria vida e trabalha na dinâmica de pessoas, espaços, lugares e memória.

    O profeta da paz 
    Feito louco/ Pelas ruas/ Com sua fé/ Gentileza/ O profeta/ E as palavras/ Calmamente/ Semeando/ O amor/ À vida...A canção de Gonzaguinha homenageia José Datrino, o empresário que vendeu tudo o que tinha para virar o Profeta Gentileza e representa, no Brasil, o Dia Mundial da Gentileza. A data surgiu no Japão, em 1997, em um congresso que reunia gente de movimentos pela gentileza de vários países. Vestido com uma bata branca onde costurou palavras e imagens de paz, e repetindo que o mundo é uma escola de amor, o profeta circulou pelas ruas do Rio de Janeiro por mais de 20 anos, pregando a atitude que, para ele, salvaria o mundo: gentileza gera gentileza.

    Arte de cuidar
    “Focamos na ética e na estética da gentileza. Escolhemos um lugar que seja simbólico daquele local e que precisa de cuidados”, explica Janaína. “Trabalhamos com a ideia de que o espaço público é a extensão da nossa casa e, por isso, precisa ser cuidado”, diz ela. O próximo passo será estender a proposta para o lado norte de Brasília, começando por Sobradinho.

    O principal conceito do projeto é instalar e mapear tudo que é confeccionado. Após esse processo, os participantes convidam a comunidade local a fazer um passeio pelas obras. “São roteiros culturais fora da área central de Brasília. É uma galeria a céu aberto que possui obras gentis. Isso promove encontro de pessoas e estimula a redescoberta da própria cidade. Incentivamos até a mobilidade delas”, conta Janaína.

    Uma das ações mais conhecidas são as placas com frases ou palavras otimistas. A ação nasceu de um jogo que Janaína criou — a Trinca Social, um baralho em que os jogadores discutem os problemas sociais, as causas e as soluções. A confecção das placas é o resultado obtido ao final. “É algo que transcende a atividade, não fica somente lá.”

    Desde 2012, mais de 70 placas foram instaladas pelas ruas do DF. Para Janaína, a gentileza precisa ser vivenciada por todos diariamente. Mas a data comemorativa vale para que seja feita uma reflexão de como as relações humanas são construídas e a forma como lidamos com o outro. “É um exercício de pensar no coletivo. Tem a ver com o que o profeta falava de dar amor a quem não se conhece.”


    (*) Júlia Campos – Correio Braziliense 

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